Existe um momento quase universal na vida de empresas B2B que crescem: o fundador percebe que não consegue mais dar conta do comercial sozinho, e a conclusão parece óbvia — contratar alguém para cuidar disso.
Na maioria dos casos que vejo em diagnóstico, essa contratação não resolve o problema. Ela o adia, disfarça, e frequentemente o piora.
Não é sobre a pessoa contratada. É sobre o que ela encontra ao chegar.
O que acontece quando não existe processo
Um vendedor novo, por mais experiente que seja, não chega sabendo o perfil de cliente que sua empresa atende bem, o argumento que funciona no seu mercado específico, os critérios que definem uma oportunidade real, ou o que fazer diante de cada objeção comum no seu setor.
Se isso está documentado, o vendedor absorve rápido e começa a operar com autonomia em semanas. Se não está — e na maioria das empresas que ainda vendem baseadas na presença do fundador, não está — o vendedor novo tem uma única fonte de referência: o próprio fundador.
Toda dúvida vira pergunta. Toda proposta precisa de validação. Toda negociação mais complexa é escalada. O fundador, que contratou justamente para liberar tempo, passa a gastar tempo treinando informalmente, decisão por decisão, uma pessoa que ainda não tem contexto suficiente para decidir sozinha.
O resultado líquido, nos primeiros meses, é mais gente na sala e a mesma quantidade de decisões passando pelo fundador — às vezes mais, porque agora ele também precisa supervisionar.
Por que a contratação parece a solução óbvia
Existe uma lógica intuitiva por trás dessa decisão, e ela não é irracional: se o problema é sobrecarga, adicionar capacidade parece resposta natural.
O erro está em confundir dois problemas diferentes. Sobrecarga de volume — muitas oportunidades para uma pessoa processar — se resolve com mais gente. Sobrecarga estrutural — processo que só funciona com a presença de uma pessoa específica — não se resolve adicionando gente ao mesmo processo. Se resolve corrigindo a estrutura.
A maior parte dos fundadores sobrecarregados está no segundo cenário, não no primeiro. E é fácil confundir os dois, porque os dois se sentem exatamente igual por dentro: cansaço, agenda lotada, sensação de que a empresa depende demais de você.
O teste rápido para saber em qual cenário você está
Uma pergunta separa os dois cenários com bastante precisão: se você escrevesse hoje, num documento, o passo a passo de como qualificar um lead, conduzir a primeira reunião e responder às três objeções mais comuns do seu negócio — você conseguiria escrever isso em detalhe suficiente para outra pessoa seguir sem te perguntar nada?
Se a resposta é sim e o processo já está claro na sua cabeça, só não está no papel, o problema é de volume — documentar e contratar tende a funcionar bem.
Se a resposta é não, ou se é “depende do caso” para praticamente tudo, o problema é estrutural. Contratar antes de resolver isso significa contratar para operar dentro da sua cabeça — o que só funciona enquanto você está fisicamente disponível para toda decisão.
O que fazer antes de contratar
O primeiro passo não é abrir vaga. É documentar o que já funciona.
Isso significa registrar, com o detalhe que normalmente fica só na experiência do fundador: qual o perfil de cliente que gera as melhores conversões, o roteiro que a primeira conversa costuma seguir, as objeções mais frequentes e como são respondidas hoje, e o critério que diferencia um lead que vale a pena perseguir de um que não vale.
Esse trabalho não precisa ser perfeito nem definitivo. Precisa existir o suficiente para que uma pessoa nova consiga operar com autonomia parcial desde a primeira semana, e não dependa de aprovação constante para avançar.
Com isso em mãos, a contratação muda de natureza. Em vez de contratar alguém para “aprender fazendo” através da sua supervisão direta, você contrata alguém para executar um processo que já existe — e sua função passa a ser refinar o processo com base no que a nova pessoa encontra na prática, não ensinar do zero cada situação que aparece.
Uma ressalva importante
Isso não significa que documentar tudo elimina qualquer necessidade de acompanhamento. Todo vendedor novo precisa de período de adaptação, mesmo com processo claro.
A diferença é de grau e de direção. Com processo documentado, o acompanhamento é sobre refinar execução — corrigir abordagem, ajustar tom, calibrar julgamento em casos de borda. Sem processo, o acompanhamento é sobre criar o próprio processo em tempo real, decisão por decisão, o que consome tempo do fundador de forma muito mais intensa e sem previsão de quando termina.
O padrão que vejo nos diagnósticos
No Raio-X Comercial, quando pergunto a fundadores por que consideram contratar comercial, a resposta quase sempre é sobre volume — “não dou conta de atender todo mundo”. Quando aprofundamos o diagnóstico, na maioria dos casos o volume não é o problema real. É que cada atendimento depende de decisões que só o fundador sabe tomar, porque nunca foram registradas em lugar nenhum.
Resolver isso antes de contratar não é burocracia desnecessária. É a diferença entre uma contratação que multiplica sua capacidade e uma que multiplica sua carga de trabalho.
Se você está considerando contratar para o comercial e quer entender em qual dos dois cenários sua empresa está antes de abrir a vaga, o link para agendar está aqui a seguir.
https://cal.com/edubraga/diagnostico
Eduardo Braga Jr. é engenheiro com mestrado em administração com foco em BPM aplicado a consultoria. Fundou a Zagaia, especializada em diagnóstico e redesenho de processos comerciais, e lidera a Religare — consultoria de crescimento B2B para empresas de tecnologia e serviços em Grande BH.







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